quarta-feira, 14 de abril de 2010

COMENTÁRIOS SOBRE OS TEXTOS DE SALZMANN E TIMM

1) A afirmação de Salzmann a respeito da Hipótese Sapir-Whorf não ignora a importância de suas proposições, porém propõe que elas sejam vistas com ressalvas. Por um lado, não se pode negar a relevância das pesquisas de Benjamin Lee Whorf, cuja formação profissional como engenheiro químico especializado na prevenção de incêndios não suplantou sua dedicação aos estudos antropológicos e linguísticos, no que se refere ao estabelecimento de um elo entre língua e a cultura de dada comunidade de fala, ou seja, na defesa de que falantes de uma mesma língua compartilham valores simbólicos semelhantes. Se considerarmos que, no contexto de disseminação dessas ideias, ainda predominava sobre os estudos da linguagem uma influência da lógica formal, baseada nas formulações veritativas, bem como a defesa de uma gramática universal, os argumentos de Whorf baseados na interdependência entre língua-cultura constituíram uma inovação. Ainda hoje, não se pode negar que língua constitui uma forma de expressão cultural.
Contudo, um olhar atento sobre a questão nos induz a problematizar os conceitos de língua e cultura, que são a base dos princípios lingüísticos de determinismo (a língua determina o pensamento) e relativismo (visão de mundo e comportamentos moldados pela língua), instaurados por Sapir-Whorf. Na forma inicialmente proposta, há uma relação de causa e efeito entre língua e cultura, a partir, principalmente, de investigações sobre o léxico dos falantes, perpassada pelas noções de unicidade e estabilidade. Obviamente, não foram agregados às pesquisas dos autores termos como identidade, práticas discursivas, hibridismo cultural, fatores importantes para compreender que, apesar de a identidade de um indivíduo se construir na língua e através dela, conforme nos aponta Rajagopalan (2001), ao investigar uma língua estamos, de fato, analisando os seus sujeitos falantes, suas práticas discursivas e os efeitos que elas têm na construção das identidades sociais. Esse contexto desautoriza a concepção de linguagem como representação do mundo e a concebe como sendo uma forma de ação, de interação e de constituição da subjetividade e das identidades. Nesse caso, uma análise linguística precisa levar em conta, os fatores sociológicos, isso porque os sujeitos não são apenas falantes de uma língua, mas a utilizam acordo com suas marcas sócio-históricas, de gênero, de profissão, de faixa etária, de opção religiosa, de comportamento sexual, de partido, enfim de contextos específicos que atuam, via linguagem, na constituição das identidades. Isso só nos confirma o posicionamento de Moita Lopes (1998, p.326) : “através do uso da linguagem construímos nossas várias identidades sociais no discurso e essas identidades afetam os significados que construímos na sociedade”.
Da mesma forma, a cultura só tem existência no contexto social, já que ela é socialmente construída nas práticas discursivas. Assim rompe-se com uma visão universalizante e independente de cultura, a qual não é propriedade exclusiva de um grupo, de uma comunidade ou de uma nação e nem mesmo pode ser vista como uma localização sólida e isenta de deslocamentos, reconfigurações e reapropriações. Por essa razão, definir um padrão cultural a partir de um estudo sistemático e isolado do léxico utilizado pelos falantes de uma dada comunidade constitui um exagero interpretativo no que diz respeito à argumentação da dependência entre língua e cultura. É querer reduzir uma complexidade inerente a uma constatação redutora, como fez Whorf ao afirmar que na língua dos Hopi não havia referência temporal, o que sinalizava a visão de mundo e o modo de vida específicos daquela comunidade. Tanto foi exagerada tal verificação que, logo, foi refutada.
Enfim, não é possível contestar que a língua contribui inevitavelmente para a expressão cultural de indivíduos e de uma coletividade. Ela não deixa de ser um meio de identificação cultural, mas antes é baseada nos usos sociais que os falantes dela fazem, a partir dos contextos sócio-historico-culturais em que estão inseridos e não apenas por pertencer a uma determinada comunidade que utiliza a mesma língua.


2) O texto de Timm analisa a questão da língua bretã na Europa e os conflitos linguísticos e culturais entre os falantes nativos e os defensores do neo-breton, uma versão atualizada da língua. O Bretão, último fragmento celta no continente europeu, constitui uma língua minoritária dentro de um território tradicional. É uma língua ameaçada, já que a maioria dos bretões são bilíngües ou monolíngues em Francês. A tentativa de uma revitalização linguistica, proposta pelos breton reformers esbarra em aspectos políticos e ideológicos que reforçam a concepção de que não se pode discutir bilingüismo senão a partir das relações de poder. A situação de confronto entre a língua Bretã e o Francês e a forma como essa gradativamente vai suplantando aquela, nos induzem a concordar com Romaine quando ela afirma que "o bilinguismo está a um passo da extinção linguística". Não que se esteja afirmando que esse fenômeno constitua um problema a ser eliminado, mas não se podem negar os casos em que a morte de uma língua foi precedida pelo bilingüismo. Assim, diante de pressões políticas, culturais e econômicas é pertinente a afirmação de que uma língua venha a sucumbir, já que a questão do bilingüismo está inserida num complexo processo sociolingüístico em que línguas minoritárias acabam cedendo às pressões das línguas de prestígio, num movimento em que a morte linguistica seja mesmo um fantasma que ronda nossa civilização há séculos.

James Deam

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